Reforma das licenciaturas em música no Brasil

Atualizado: 27 de Jun de 2018

Atualmente tenho refletido muito sobre qual deve ser o papel das universidades brasileiras com relação ao ensino da música e sobretudo, qual o meu papel como professor trompetista na intuição de ensino na qual atuo, onde possuímos uma licenciatura em música. Em 2012 fui empossado na Universidade Federal de Ouro Preto (MG) como Professor de trompete (ou trombone) e educação musical. Desde então formei alguns poucos alunos, - muito queridos, diga-se de passagem - pois em um curso onde não havia uma disciplina destinada aos instrumentos da família dos metais, acho normal que tenha formado poucos trompetistas até então. Incentivei o advento de duas orquestras no departamento de música da universidade onde trabalho : a Big Band Ouro Preto e a Banda Sinfônica Ouro Preto. Me considero um educador musical mas nunca deixei de ver o meu instrumento, o trompete, como o principal porta voz de minha mensagem pedagógica. O que mais me fascina em ser professor de música na academia é o fato de que, diferente das demais ciências humanas, exatas, biológicas e etc., nosso objeto de estudo é "sonoro". Investigamos tudo o que circunda a arte musical: sua história, elementos rítmicos, melódicos harmônicos, fenomenológicos, pedagógicos e etc, fazendo disso um elo entre ser um executante do instrumento sem deixar, entretanto, de desenvolver uma reflexão sobre a interpretação e pedagogia da música, sempre estimulando o aprimoramento intelectivo de nossos discentes. E afirmo novamente, continuo enxergando meu trompete como portador dessa mensagem, seja quando toco em uma big band, recordando o papel de personagens históricos da música como Duke Ellington ou Moacir Santos, seja tocando em uma banda sinfônica, valorizando figuras lendárias das bandas de música como John Philip Sousa ou Anacleto de Medeiros, ou quando me conecto, como trompetista de orquestra sinfônica que sou, com a inspiração quase mística que incentivou compositores como Brahms, Stravinsky e tantos outros a conceberem suas geniais obras primas. Sinto um grande envolvimento (artístico e pedagógico-analítico) com a literatura de meu instrumento, o trompete, fazendo dos compositores que para ele escreveram obras de relevância como Haydn, Hindemith, Jolivet ou tantos outros, verdadeiros expoentes de nosso repertório. Considero de suma importância o domínio desses conceitos para qualquer estudante trompetista que decida ingressar na carreira musical, seja ela de cunho pedagógico, artístico, ou ambos (que considero ser o meu caso). Talvez seja uma comparação exdrúxula, mas para mim como trompetista, comungar com autores que elevaram meu instrumento a uma posição de destaque na literatura musical, seria o equivalente de um filósofo que comungue com Platão, Averróis, Kant, Schopenhauer ou Nietzsche ou de um físico quântico que comungue com Galileu Galilei, Isaac Newton, Albert Einstein ou Stephen Hawking...


Atualmente as licenciaturas de todo o Brasil, inclusive a de música, estão em fase de reformulação. Para melhor ou pior? Isso depende do ponto de vista...


Após uma profunda reflexão sobre essas mudanças , não foi necessário muito tempo para concluir que esta reformulação poderia trazer malefícios ao trabalho de professores de instrumento musical como eu, que prezam pelo desenvolvimento técnico e expressivo do instrumentista.


Está sendo votado que, daqui em diante, o ingresso em alguns cursos seja feito através do SISU, eliminando a necessidade de realizar-se exames de habilidade específica em música, como tem sido tradicionalmente feito e que espero que muitas universidades brasileiras pretendam manter. Tenho dificuldades em imaginar um aluno que ingresse no curso de medicina sem ter estudado os rudimentos da anatomia e fisiologia do corpo humano, ou um aluno que ingresse em curso de engenharia sem conhecer os rudimentos da trigonometria, geometria e álgebra, tenho dificuldade em imaginar um estudante que ingresse no curso de farmácia que não compreenda a tabela periódica, e que desconheça os conceitos de ligações iônicas, composição de moléculas e demais rudimentos da química orgânica e inorgânica. Felizmente, os conhecimentos inerentes a essas áreas do conhecimento são contempladas, mesmo que de forma generalista, nos ensinos fundamental e médio, e lamentavelmente, não podemos dizer o mesmo sobre o conhecimento musical… A especifidade de nossa área e a longevidade que a formação de um músico necessita, faz com que seja imprescindível que busquemos por indivíduos que já sejam desenvoltos na área da música. O ingresso pelo SISU eliminaria qualquer certeza cerca dessa desenvoltura musical do aluno ingressante nos cursos superiores de música.


No curso de licenciatura onde leciono, por exemplo, existe a eminência de eliminar-se os 4 primeiros períodos de instrumento como disciplina obrigatória, ou seja, se algum aluno de trompete desejasse vir estudar em Ouro Preto para, além de se formar como licenciado em música, usufruir de minhas aulas de trompete, teria que esperar 2 anos ou mais por isso. Isso me impossibilitaria de continuar divulgando o curso de música com a mesma ênfase que tenho feito, inclusive por meio de minhas videoaulas no Youtube pois não consigo imaginar que algum aluno instrumentista queira ir para uma universidade onde ele usufruiria de apenas 4 períodos, enquanto as demais instituições que outorgam cursos de instrumento estejam ofertando 8 períodos, como sempre foi feito. O mais doloroso, em minha opinião, seria privar o estudante do sonho em estudar um instrumento musical a fundo nos primeiros anos de sua formação acadêmica.


Eu votaria contra a possibilidade de ingresso no curso pelo SISU e votaria contra essa possível inexistência da disciplina obrigatória de instrumento nos 4 primeiros períodos. Seria a favor, no caso de licenciaturas, entretanto, da manutenção dos exames de habilidade específica e sugeriria 6 períodos obrigatórios de instrumento e a criação de 2 disciplinas eletivas nos 2 últimos períodos, disciplinas estas destinadas à elaboração e preparação do recital de formatura, deixando assim que os alunos que não desejem se aprofundar tanto na arte de tocar um instrumento optassem pela não realização de um concerto-solo que encerre seus estudos acadêmicos durante a graduação.


Sou a favor do cultivo do aprimoramento intelectual dos estudantes aliado a um ensino musical de qualidade, obviamente prezando, sempre que possível por um bom grau de expertise no instrumento. Sempre acreditei no diálogo e afinidade entre educação e cultura, mas se esta nova licenciatura passar a vigorar de uma forma que ameace um ensino consistente dos instrumentos musicais, confessaria uma grande incredulidade no futuro de alguns cursos de licenciatura em música, dado o desequilíbrio que tanto prejudicará o trabalho dos professores de instrumento.


Estou muito desejoso de um certo diálogo com os demais professores de instrumento musical das instituições de ensino brasileiras, sobretudo daquelas que outorgam diplomas de licenciatura. Lhes digo, com um certo ceticismo, que com uma eventual ótica pedagógica antagônica ao fazer musical, não lograríamos a preparar os alunos instrumentistas do Brasil a serem eficientes no mercado musical. Estaríamos privando o educador musical de pleitear postos de trabalho como instrumentista, limitando suas possibilidades empregatícias... Eu acharia isso muito triste!


Francamente, se algum aluno trompetista me perguntasse sobre algum curso de música que possua apenas 4 períodos obrigatórios de instrumento, teria que desestimulá-lo a ingressar nessa universidade, pois estes estudantes mal poderiam usufruir das aulas de instrumento e com certeza não estariam prontos para atuar como instrumentistas ou professores de instrumento no término de sua graduação, a não ser que já sejam músicos experientes antes do ingresso no curso. O direcionamento equivocado de alguns cursos de licenciatura poderia, a meu ver, decretar-se antagônico às possibilidades de prática musical que beneficiem a área de instrumentos de sopro, à qual venho me dedicando em afirmar na comunidade acadêmica desde 2012, dado o fato que a região onde atuo possui dezenas e dezenas de bandas de música e o estado, centenas delas. Se universidades que possuem formação em instrumento de sopros optassem por extinguir metade da carga horária obrigatória dessas disciplinas, estas estariam prestando um grande desserviço aos alunos provenientes de bandas de música. A única saída para se valorizar o trabalho dos professores instrumentistas seria a ênfase na implementação de bacharelados, que considero quase como um ato de injustiça, pois eliminaria dos alunos instrumentistas a possibilidade de se aprimorarem nas duas frentes trabalhistas principais do músico: a de educador musical e a de músico instrumentista. Desacreditar que os alunos de cursos de música no Brasil poderiam exercer ambas atividades lhes seria um voto de descrédito e estaríamos subestimando a capacitação profissional desses discentes.


Encerro meu texto enfatizando o carinho que sinto pela instituição onde atuo como professor de música e que estas ponderações sirvam não para me posicionar antagonicamente aos ideais da maioria dos colegas - de minha ou demais instituições - que discordem de mim, mas sim para ajudar a fortalecer as bases que induzirão as licenciaturas em música de todo país atraírem cada vez mais alunos aptos a realizarem um curso superior com maestria e determinados a atuar tanto em frentes educacionais quanto artísticas, prezando pela diversidade, pluralidade e direito de escolha dos estudantes de se moldarem como o profissional que eles desejariam ser. O caso do último processo seletivo em minha instituição, a meu ver muito positivo, prezou por uma difusão consistente e antecipada do curso e pelo menos nas bancas das quais participei, logramos um processo seletivo onde predominou o equilíbrio na análise das habilidades específicas e não específicas dos candidatos.


Adoraria ler seus comentários sobre essa atual conjuntura da reforma das licenciaturas no Brasil, sobretudo no que tange o papel do professor instrumentista.


Grande abraço a todos!


Érico Fonseca

Classe de trompetes do curso de licenciatura em música da Ufop em 2018,



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