Ser trompetista dentro (e fora) da universidade

Atualizado: 23 de Ago de 2018

Tenho me perguntado sobre quais aspectos se preocupam jovens trompetistas que decidem seguir a carreira de músico ou professor de música no momento de buscar a instituição, a orientação e o orientador ideal. Permitam-me citar o meu caso como estudante. Durante minha adolescência, comecei a me encantar pelo repertório sinfônico: Mahler, Shostakovich, Tchaikovsky, Brahms, Debussy, Stravinsky... Evidentemente que desde cedo eu já nutria o sonho em tocar em uma orquestra sinfônica e de comungar, mesmo que como uma pífia partícula, com a genialidade desses compositores. Desde então comecei a pensar seriamente em sair do Brasil para estudar, Quando tive a grande sorte em receber uma bolsa de estudos para partir para a Suíça, onde optei em tornar-me aluno de Jean-François Michel, que havia tocado como primeiro trompetista na Orquestra Filarmônica de Munique (Alemanha), inclusive durante a"Era Celibidache" além de ter sido laureado do prestigioso Concurso de Execução Musical de Genebra, dentre outros prêmios e realizações prestigiosas no campo da música erudita. Para minha supresa (e alegria), o Professor Jean-François Michel dava muita ênfase no repertório solo do trompete, apesar de frequentemente abordar o repertório orquestral e métodos de fundamentos, mas o cerne do curso estava nas obras que abordavam o trompete como solista. Cerca de um ano depois de minha chegada na Suíça, aos 19 anos de idade, comecei a fazer concursos regionais, nacionais e internacionais e acabei ganhando alguns prêmios e passando a brigar pelas vagas de academista em orquestras sinfônicas profissionais, pois era a única forma que me permitia obter bolsas de estudo. As duas academias que fiz, em Berna e em Zurique, fizeram com que eu adquirisse uma ótima experiência orquestral e começando enfim, a viver o sonho de tocar em orquestra sinfônica. No mesmo ano de 2001, comecei a dar aulas de musicalização infantil e aulas de trompete em bandas de música: esse foi meu primeiro "emprego" como músico. Dada a necessidade de trabalhar e estudar, fui começando a apreciar tanto as possibilidades que  academia me dava ao estudar e interpretar obras relevantes para o trompete de compositores como Haydn, Enesco, Arutunian, Tomasi, Jolivet, e etc, quanto minha atividade como aprendiz de músico de orquestra sinfônica e educador musical. Pode parecer estranho e errôneo, mas quando vivia na Suíça, nunca explorei minha brasilidade, tocando gêneros nacionais como samba, MBP ou choro. Apesar de me sentir atraído por esses gêneros, minha carreira sempre se inclinou para a música clássica. Na Europa, eu estava totalmente focado em realizar meus estudos universitários, tocar em orquestras sinfônicas, desenvolver um trabalho profundo com o repertório solo para trompete (exigências dos cursos superiores que fiz) e lecionar música e trompete a jovens de 10 até 18 anos: sim, eu tinha pouca diferença de idade com alguns alunos, que tinham 16 a 18 anos enquanto eu tinha 19 ou 20...

Enfim, ao regressar ao Brasil, eu optei pela carreira de músico de orquestra, com um "q" de solista recitalista, camerista e educador musical. Hoje, além de tocar na Filarmônica de Minas Gerais, sou docente na Universidade Federal de Ouro Preto, onde, além de lecionar disciplinas diversas na licenciatura em música (o que toma um tempo considerável), coordeno tanto um curso de extensão em trompete (presencial e a distância) quanto um grupo de trompetes. Ou seja, minha atividade trompetística está começando a se vincular mais enfaticamente à extensão universitária e não à licenciatura em música, onde abarcamos trompetistas que não possuem a ambição de buscar um máximo de expertise e desenvoltura na arte de tocar trompete, o que é completamente compreensível, uma vez que o foco na licenciatura é formar professores e não instrumentistas. E pessoalmente, tenho tido muita satisfação em abordar o trompete em alto rendimento dentro da extensão universitária, o processo me é rejuvenescedor e contribui para a longevidade de minha carreira pois o fato dos alunos de extensão abordarem a grande literatura, faz com que eu tenha que me esforçar para estar tão "em forma" quanto meus pupilos, estes super motivados em tocar em alto nível. 

Algo que me causa estranheza em alguns jovens trompetistas brasileiros é a falta de clareza quanto aos seus objetivos profissionais: não deixam claro se querem tocar música clássica, música popular, jazz, se pretendem ser educadores musicais, músicos de orquestra ou banda militar. Obviamente que na atual conjuntura, as possibilidade de trabalho para trompetistas no Brasil é escassa, o que leva esses estudantes a buscarem uma expertise superior àquela de minha geração além de se esforçarem em serem versáteis. Mas não tenho certeza se é isso que ocorre, ao menos não aqui em Minas Gerais, Estado que concentra a maior quantidade de bandas de música...

Praticamente não possuo produção nenhuma em música popular, portanto julgo-me praticamente inapto a formar um trompetista de jazz ou de choro! Mesmo assim alguns estudantes insistem em permanecer sob minha tutela visando tornar-se trompetistas de música popular. É como se eu como professor tivesse que me adaptar ao perfil deles ao invés deles já chegarem na universidade sabendo quem eu sou e o tipo de repertório que domino. Em minha opinião, isso culmina em um tremendo sub-aproveitamento do professor e do aluno! Não duvido que o contrário também ocorra e trompetistas que sonham em integrar uma orquestra sinfônica estejam tendo aulas com um "jazzman". Também existe o caso de trompetistas que desejam se versarem em performance mas acabam cursando uma licenciatura assim como bacharelandos que ao se formar estarão completamente despreparados para o competitivo mercado de músicos profissionais. É um equilíbrio delicado em obter-se pois acredito que alguns músicos visem tornar-se grandes instrumentistas mas ao mesmo tempo vêem no diploma de licenciatura uma possibilidade de trabalho mais concreta, atuando em instituições como escolas, conservatórios ou afins...E também aqueles que desejam dominar ambas as vertentes: a da música popular e da música de concerto.

Enfim, caro leitor, mesmo que não sejam trompetistas, a mesma realidade se aplica a outros instrumentistas ou até mesmo a outras profissões e por isso gostaria de ler sua opinião.


Até a próxima postagem!

Foto: Mariana Garcia

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© 2017 por Érico Fonseca, Dicas sobre trompete.

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